Em muitos pontos vou acabar generalizando a coisa toda. Mas é o modo mais fácil de se abordar o que eu quero, nesse momento. Portanto, já está explicado que eu sei que realmente não é um problema de todos, mas infelizmente, da maioria.
A internet, a rede mundial de computadores, como diz a nossa querida Rede Globo. Basicamente consiste, em informações trocadas por computadores. Através do protocolo TCP/IP, tomando a abstração como fato. Todos os esses dados são trocados através de zeros e uns. Ou ligado e desligado. Que é a única _língua_que os computadores entendem, no mais baixo nível. Portanto, realmente tudo em algum momento é binário. Porém, chamar a internet de rede mundial de computadores, e não de rede mundial de pessoas, é tirar do cerne da questão, o que realmente faz a internet.
Computadores, hoje pelo menos, em 23/01/2012, não fazem quase nada sozinhos. Não trocam informações por si próprios. Não pensam e não tem opinião. Os computadores, então, na internet, são um meio para o fim. Para as pessoas se comunicarem mais e melhor.
Já as pessoas, ao contrário dos computadores, não são binárias. Não existe apenas certo e errado, não existe apenas preto ou branco. Nossa comunicação verbal, nossa língua, é um bom exemplo disso. Elas são cheias de nuances, traços e particularidades. A mesma palavra dita por pessoas diferentes, ou até mesmo pela mesma pessoa em situações ou com entonações diferentes, pode ter um significado que equivalham o norte ao sul.
Some isso, ao fato da comunicação verbal não ser responsável por 100% do nosso processo de interação, e temos um arcabouço de comunicação, que ao mesmo tempo é sutil, complexo, mas que carregamos e codificamos isso absolutamente automático. Esse Talk do TED http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/daniel_tammet_different_ways_of_knowing.html.
Não é exatamente sobre esse assunto, mas nos faz abrir um pouco os olhos da percepção de como esse sistema é complexo, mas ao mesmo tempo tão automático, que nem nos damos conta.
Na internet, eu não tenho um percentual exato, mas imagino, por experiência, que a maior parte do conteúdo e das comunicações estabelecidas, são através de texto. Só por aí, já da pra perceber o quanto perdemos das nuances de uma comunicação tete a tete. Claro, existem os podcasts, os videocasts, que se comunicam por áudio e vídeo, que por conter mais elementos, deixam mais próxima de uma comunicação real. Porém, estes meios, acabam que são de uma via. A não ser que a aquela “conversa” esteja acontecendo ao vivo, em uma tela ou uma chamada de Skype, o retorno e a troca, não será o mesmo.
Mas, uma comunicação de via única e textual é ruim? E os livros, você não gosta de livros? Claro que gosto, sou um leitor voraz de tudo que aparece na minha frente. E o principal motivo de eu ver uma riqueza enorme na literatura em geral. É o fato que ela permite, por mais que o escritor seja detalhista em suas definições e descrições, que você crie uma imagem mental, daquelas palavras ali contidas. Uma descrição extremamente detalhada de uma árvore, feita por mim, provavelmente, vai gerar uma imagem mental diferente em cada um dos que lerem. E isso vai ser fruto, da linguagem, das experiências prévias de cada um e o modo de interpretar o texto. E tudo isso é muito bom.
Esse mesmo comportamento que temos ao ler um livro e completar os aspectos que faltam, fazemos também, com pessoas que imaginamos ser os interlocutores. Moldamos mentalmente, um quadro de determinada pessoa, com alguns elementos que temos, e acrescentamos à nossa vontade naquele momento, de acordo com nossas expectativas, o que nos falta de informação. Isso é natural, temos essa necessidade de dar ordem ao caos. De completar as lacunas.
Muitas das teorias cientificas, nascem como uma teoria, a partir, primeiro da observação do que temos de dados no momento, depois passa-se a preencher o que falta. Depois é claro, se o cientista for sério, ele colocará a prova o que especula e aquela teoria se tornará um estudo, uma lei. O que quer que seja. E é justamente nesse ponto, que eu chego onde quero. Nas discussões rotineiras da internet, muitas vezes percebo que as pessoas não querem colocar a prova aquelas lacunas que preencheram, se contentam e se agarram a isso, como se fosse uma verdade absoluta. E qualquer argumentação que vai contra seu pensamento inicial, se torna uma afronta ao dogma que ela criou para si mesmo.
Voltando um pouco agora ao aspecto do livro, do meu ponto de vista, quando lemos um livro, temos os interlocutores definidos, o emissor, colocou ali suas palavras e o receptor, se propõe a receber aquilo por motivos que melhor lhe convierem. Seja para ouvir uma boa história. Estudar sobre algum ensaio. Ou até esmiuçar a obra para lhe fazer críticas. Porém, mesmo que o objetivo seja criticar, positiva ou negativamente, dificilmente o receptor terá contato direto com aquele que produziu a obra. Ele pode, até ter é verdade, por meio de uma rede social, por meio de um contato físico, mas o acesso se acederá, em um meio completamente diferente daquele que é criticado ou elogiado. E com algum intervalo de tempo também, talvez o suficiente para se obter um ponto de vista, mais maduro e não tão ao 8 nem tão ao 80.
Em contrapartida, a internet é um meio extremamente democrático, o autor de uma postagem em um blog qualquer, “corre o risco” de ter o seu post suprimido pelos próprios comentários e discussões sobre os assuntos que foram abordados. A ideia inicial principal, inclusive, pode muito bem perder a força e dar lugar a minucias abordadas. Isso pode ser e é muito bom. Se tivermos realmente um debate, uma troca de informações entre as pessoas. Mas infelizmente, quando vejo isso, é uma exceção a regra.
Saindo um pouco do assunto, novamente, um outro aspecto interessante, é que hoje temos conteúdo muito mais abundante do que podemos consumir. E nisso, eu falo de conteúdo de verdade, e não vídeo de gatos mexendo num iPad. Então, naturalmente fazemos as escolhas do que desejamos consumir, de acordo com nossas preferências pessoais. Nada de ruim com isso. O problema, é que acabamos nos fechando demais dentro de nossos próprios interesses e raramente nos deparamos com a opinião contrária, e quando nos deparamos, jogamos pra baixo do tapete ao fingir que não existe, ou ainda pior, assumimos aquilo como uma afronta ao nosso ponto de vista, que por estar tão consolidado por esse círculo vicioso de mais do mesmo, é o único válido.
Ainda sobre a abundância de conteúdo, mesmo nos fechando em círculos de nichos de interesse, temos uma infinidade de fontes sobre as mesmas coisas, então tão logo que termine de ler uma postagem, ouvir um podcast, assistir um vídeo, tenho algumas opções: partir para o próximo; passar pelo local para marcar posição; ou deixar o debate proposto para depois, tendo assim, tempo para digerir a ideia ou pensar mais a respeito. Essa última, no meu ponto de vista é a mais complicada, não que seja ruim, mas por ser realmente difícil, por vários motivos, um deles, os assuntos passam muito rápido. O que hoje é o Hype máximo, amanhã todos esqueceram.
Outro motivo é o acumulo de informação, útil e inútil. Se eu termino de escutar um podcast agora. Depois de 12 horas, eu já terei escutado mais 4, assistido mais 3 videologs, lido umas 5 ou 6 postagens do blog. Apenas consumido mais e mais conteúdo. Além de não ter tido tempo para pensar, afinal eu estava recebendo mais informações, talvez já tenha até esquecido de tudo que li.
O mais óbvio e o mais comum então é ao terminar de se expor por um determinada opinião e muitas vezes antes mesmo de começar, já pendemos para algum lado da história, como se realmente houvesse um, de fato. E tecemos um comentário no instante seguinte ao término. Não há reflexão, a ideia não é digerida, só é cuspido um texto de algumas palavras, seja ele elogioso ou uma crítica que vai muito além do que o texto em si se propõe. E ainda pior, se é a primeira vez que estamos de fronte aquele indivíduo, podemos ir a uma rápida caçada pela vida pessoal, as opiniões sobre outros assuntos. Naturalmente, de acordo com essas informações, já fazemos alguns pré julgamentos, completamos parte de sua personalidade com nossas aspirações. Se for alinhado conosco, tecem-se elogios rasgados, afinal encontrou-se mais um aliado de ideias na vastidão online.
Se for contra o que se pensa, assume-se o lado oposto, e inicia-se uma cruzada, contra aquele pensamento contrário, que é, naturalmente, uma ameaça a tudo que você pensa. E nisso inicia-se um ciclo sem fim, de ataques e contra-ataques. Quem critica é invejoso, cruel, falacioso. Quem é criticado fica na posição de indefeso e mau compreendido. Ou podem-se inverter as posições, dependendo de quem estiver do outro lado do teclado.
Instaura-se, então, o caos de fogo cruzado, em que, muitas vezes argumentos, válidos, elaborados e bem construídos, se perdem no mar de irrelevância, da opinião pré concebida. Do TLDR, do barulho desnecessário, feito apenas para marcar posição.
O problema de tudo isso, é que o debate, que é o mais importante, não deve se basear em A ou B. De quem está certo e quem está errado. Isso, no final das contas é o que menos importa em um debate claro de ideias. O principal aspecto de um debate franco é a troca. O que uma pessoa tem a acrescentar a outra. Debater apenas para descobrir quem está certo certo e quem está errado. Além de vazio, é extremamente perigoso. Explico o porque. Quando nos focamos nesse dualismo, deixamos, inconscientemente de pensar profundamente, de abrir a cabeça para descobrir que provavelmente as ideias do indivíduo A tem alguma razão e fundamentação, enquanto a de indivíduo B, também tem sua razão e fundamentação. E assim quem sabe podemos formar uma terceira ideia C, uma terceira linha de pensamento, que una o melhor de A e B, e assim subimos a discussão de degrau, o nível eleva-se e partimos pra um próximo debate.
O sonho de qualquer ditador, ou qualquer governo totalitário, é diminuir a capacidade de pensamento ao dualismo e às dicotomias. Resumir a capacidade cognitiva ao certo e ao errado.
Quem leu 1984, de George Orwell, sabe o que é a novilíngua, para os que não leram, recomendo absolutamente a leitura. Mas vou explicar o que é. A novilíngua, seria o suposto final da revolução do IngSoc. A edição final do dicionário de novilíngua, o mais simples possível, seria o final e total controle da heterodoxia, e o passo final do partido. Seria o último passo da evolução da Oceania.
Tudo isso, porque a novilíngua, ao contrario de todas as línguas humanais naturais, ao invés de se tornar mais complexa e com mais termos, e principalmente mais termos para as mesmas coisas. Ela consistia na simplificação de tudo, sob o pretexto de eliminar da comunicação a necessidade do pensar. E por assim todo dualismo e contradição seria aceita sem qualquer problema ou desconfiança. Não custa lembrar também, os lemas do IngSoc, Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força. Afinal, quando se tem apenas o certo e errado como opinião sobre algo. No fim das contas pouco importa, se é realmente certo ou errado. Porque será diferente para outro. E como o debate se resume a isso, ele se consumirá em torno de si próprio e nunca chegará a lugar nenhum. É o ponto máximo da ortodoxia, em que mesmo pessoas em discordância, chegam a um ponto final, que é permanecer no mesmo estado de antes.
Tenho alguns exemplos recentes de grandes discussões que rodaram a internet, uma delas é a Usina de Belo Monte. E a outra a ocupação da reitoria da USP, pelos estudantes e depois a agressão de um policial militar contra um estudante.
Nos dois casos, o que se via, era pessoas tomando um dos lados da discussão, seja por ideias compatíveis, seja por ideologia política. Usando a falsa dicotomia, em que ou se estava de um lado, ou outro. E assim, simplesmente ignorando o fato de que havia muito mais do que um lado certo e um lado errado. No caso da USP, por exemplo, muito do que vi, se baseava em chamar os ocupantes dos prédios de comunistas da elite, maconheiros e descopados. Do outro lado, chamando os que apoiavam a força policial, de conservadores de direita, manipulados pelo sistema. Pouco se via alguém tentando realmente entender as reivindicações de quem ocupava o prédio, e parar pra pensar sobre elas. Ao mesmo tempo que parava para entender os motivos daqueles criticavam a invasão, com embasamento, para assim realizar, que na verdade, os dois lados, poderiam ter suas razões.
Com Belo Monte, a coisa toda caminhou para o mesmo caminho, com a diferença, que por se tratar de uma obra de engenharia, ao invés de posição ideológica, eram invocados dados técnicos, muitas vezes ao acaso, e sem domínio nenhum do que estava sendo proclamado, apenas replicando informação, seja de fontes confiáveis ou não.
Enfim, ficaram ainda muitas pontas soltas ainda sobre os diversos assuntos que tentei abordar e que são intrínsecos a esse problema que eu vejo nas discussões em geral pela internet. E o interessante, é que o estopim dessa postagem, foi uma discussão acerca de direitos autorais, tema que não é o foco deste, mas que provavelmente será o assunto do meu próximo post.
Então, se você teve paciência de chegar até aqui, você provavelmente tem paciência para fazer um comentário que seja, fique a vontade de corrigir, caso haja alguma discrepância, ou alguma imbecilidade no seu ponto de vista. Mas por favor, algo mais do que TLDR, não concordo, ou concordo.